terça-feira, 25 de março de 2008

amanhã verde

Ai ela toca a campainha pra avisar que está chegando, mas tem a chave, ele pode continuar no sofá verde. O gato destruiu todo na semana passada, quando a monstruosidade chegou, até que não ficou tão mal. O monstro verde nem era tão confortável, e ele jamais admitiria, mas dependendo do nível de álcool poderia compartilhar o medo com Ernesto, mas suas unhas eram bastante menos afiadas.
Ela entra com o cabelo duro bagunçado.
-You’ve got crazy eyes.
“Não estou pra brincadeira” rebate ela, sentando ao seu lado no verde.
Daí deita a cabeça na perna dele, e chora até conseguir falar que esta apaixonada.
“To apaixonada”
Levanta o rosto. A cena é fácil, mas é complexo descrevê-la; aí vai:
Antes o cabelo black dela esta do meio das pernas dele e a bochecha direita deitada em cima destas, portanto ela pode ver o Ernesto em cima da tevê e não a barriga dele. Depois, levantar o rosto no caso seria deixar de ver o Ernesto e ver o queixo dele com sua barba bem feita, mas também vê pouco porque ele logo olha pra baixo e a visão seria perfeita, mas era sol de Janeiro.
- Quem é? – ele pergunta
- Você não conhece, não é amigo.
Os olhos enchem d’água, ele resolver ver o Ernesto, que mostra compaixão pelo dono, olha para ele, olha, olha, até não o ver, pois a compaixão irracional se esgota e a antena da tevê importa mais.
Ele deixa escorrer uma lágrima, que vai penetrando com dificuldade no ninho cheio de idéias.
- Ô meu amigo, chora não, se não eu choro mais ainda.
- Não é isso Nega, é que...
- Que diabos de sofá é esse? – ela interrompe.
- É novo.
- Mas diz aí que que é então.
- Não é nada não, é só isso mesmo.
Ela seca uma fugitiva, escorrega as mãos nos cabelos loiros, depois volta aos olhos que estão fechados e ela brinca com os cílios.“É loiro até no olho”. Ele não ri. Era pra ela continuar, mas não entendeu. Por fim, dá-lhe um beijo estalado na bochecha, levanta e diz:
- Acho que gosto do verdão.
- É monstro.
Chega menos de trinta centímetros pra trás.
- Acho que não, né Ernesto?
O gato não diz nada.
- A gente não gosta Nega.
- É, a gente não gosta. Vou lá.
Ele ta pronto pra desarmar, com medo da suspeita falida, mais um segundo e poderá respirar os quinze minutos comprimidos. Ela passa da porta, que deixa sempre aberta e lá da janela do elevador ouve-se uma sentença, quase um postulado, totalmente “ilógico” e atemporal.
- O bom é se quando sequer doer, tens tu amanhãs.
Ele então respira vendo a cabeça afundar sem saber se é bom ou ruim.
Sabe-se que sorriu.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Quando

Nunca, nunca, nunca.
Até as veias incharem.
Até as veias explodirem.
Até o sorriso cansar.
Até a pele manchar.
Até lavar toda a roupa.
Até o estômago arder.
Até falar sobre tudo.
Até comer sem querer.
Até engolir coisa pouca.
Até precisar do moderno.
Até se julgar necessária.
Até as unhas.
Até o silêncio ventar.
Até se encher de remédio.
Até remediar o impossível.
Até achar mesmo graça.
Até as pernas.
Até o frio quente.
Até a chaleira.
Até os favores.
Até que doa.
Até o tempo.
Até se render.
Até ser rendida.
Até que pare.
Nunca, nunca, nunca
Até.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Àmigo

A protagonista deste filme é atriz coadjuvante de um filme lado B qualquer. Ela tem medo e pouca idade, não que os dois tenham qualquer ligação. A menina cansa os calos adiquiridos ao longo de sua breve e quase bidécada andando, e não caminhando, porque ela não tem necessáriamente pressa mas quer chegar. Então anda cansada por aí procurando algo que desmonte a nostalgia em pequenos flocos de incerteza que a façam correr e não caminhar (leia-se futuro).
Pois bem, dentre andanças que nada possuem de únicas quer de especiais, prendo-me numa que chama a atenção. E que tenho minhas dúvidas se farão o mesmo com o senhores, mesmo achando esse diálogo "artista"-interlocutor um tanto demodê para os dias atuais.
Enfim, eis que um dia a menina pega o metrô e desse nas Sans Penha, tinha alguma familiaridade com o lugar, a razão da qual nos é de total irrelevância. Pronto lá esta ela andando num par de tênis sujos apertados, ainda que fosse bastante asseada. Engasgou cantando uma melodia com voz de soprano rouca, bonitinha até.
Andou muito, parou numa pastelaria e não pediu nem pastel nem caldo de cana, cumprimentou os chinas que trabalhavam, os quais foram familiarmente antipáticos.
Tomou um ônibus contando com todo o sexto sentido históricamente atribuido ao gênero e preparou-se para descer no ponto final. Sendo fiel à trama não mencionarei uma cena sequer durante o trajeto, que a menina só fez dormir, minhas especulações indicam que talvez seja pelo cansaço da insônia, talvez pelo ventinho na cara, não sei.
Acordou, pôs-se de pé, amarrou os cadarços e desceu do ônibus. Respirou fundo, numa preparação prévia para a ladeira que teria pela frente, comprovou que o local ali era mais frio do que o normal, nada insuportável, mas sutil, digo comprovou pois a pessoa que esperava encontrar no topo da andança havia dito isso algumas vezes à ela.
Como isso a cansava, ela suava, não pelo trajeto íngrime, mas por so mesma. Pelos erros e acertos com as pessoas. Pois a menina adorava analisar as relações entre as pessoas. O assunto era pauta plena na cabeça descoupada (não por idéias). A casa passo ela percebia a afinidade, a não-cerimônia e a linha larga e fraca que a ligava àlguem. Cada passo nostálgico a lembrava de um tempo no qual essa linha era indestrutível, tempo camuflado pela ausência total, mas não a parcial, essa sim agravante.
Os calos ajudavam o medo e a menina andava depressa pra chegar a casa do amigo, que nunca frequentara e não fazia diferença, estava ali.
Assim, há duas possíveis versões finais para a história e cabe ao espectador atribuir sua devida expectativa a qualquer uma das duas (e em filme B tudo é possível).
Primeira chave de ouro: A menina para, descansa na calçada, em frente a janela da sala do amigo, que surpreendentemente encontra-se naquele cômodo, ela mesmo de costas grita o nome dele, que a convida para entrar e trançar os pequenos fios da corda que incertezamente(palavra que me permito criar) tinham se rompido, e tomam café da manhã falando amenidades.
Segunda chabe de ouro: A menina para em frente a casa outrora convidativa e tem medo de tocar a campainha, de não ter gente em casa, de ter gente em casa, medo do que ele vai dizer quando a vir ali, medo do julgamento inconveniente que fará dela, sendo esse um medo totalmente novo, medo largo e fraco. Caminha então, lentamente, ao ponto final (do ônibus).

domingo, 2 de março de 2008

Os 10 passos para a vida perfeita

Esse caminho curto vai até a esquina da rua cujo nome esqueci. São dez erros bem sucedidos que trarão a unicidade ao ser(mão). A receita da perfeição encontra-se justamente no revés desta. Que não se confunda com o orgulho merda dos rebeldes sem causa ou calça, que seja. Mas no parecer da quebra do usual. Pelo bom uso do tanto faz, não blasé. Da porrada na face prosaica de gente repetida. E na infantilidade comunista ilusória do maluco são. No dar a cara à tapa ao realismo de muitos. E apreciar o difícil com facilidade, e temê-lo percebendo o seu devido limite de não-corrosão. No reflexo dos grandes feitos intruistas pouco ou nada remunerados. O estado jovial permanente e descriterioso. No brincar com a amoralidade dos moralistas (hipócritas) universais. Na filosofia de mesa de bar. Na inteligência efêmera. Na não larga escala. No dinheiro, vestimenta e cara lavada. No amor-conflito do dia-a-dia vil. Na auto-avaliação puramente positiva do: e agora, eu viro pra onde?