segunda-feira, 2 de junho de 2008

Casório

No imaginário ainda cálido mora a divina moça que na espera de minha chegada enrubrecia, e nesta propriamente dita, emudecia, tão logo na partida, exaltava-se enraivecida certa de minha desatenção insutil, a desejar seu toque como tantos o fizeram, para mim seria a menina muda, a jovem introvertida, a nenhuma entre outras mil.
Só que esta em seus devaneios não sabe que habita os meus, que seu silêncio enche de mistério o ar que inunda meu corpo ainda curioso, pelo perfume do jardim de claros cabelos presos e a veste que encobre o cru inebriante da tal. Que viesse como fosse em sinfonia, ou só o vento, posto que o pulsante teria, tal qual o pensamento.
Pois com ela os dias não murcharão, as flores não inundarão, a chuva não esfriará, a cama que reluziu, o anel coberto de razão, que sorri ao entregar, pela última vez, sangrado este meu coração.

sábado, 31 de maio de 2008

Ventríloco

Se eu pudesse, mastigaria e te daria pra comer depois, o que vai te nutrir e te fazer crescer. Quando ando sentada nesta cadeira e te tenho em meu colo, meu coração vem calmo no peito. E até vir a cadeira de balanço e as pernas doerem já inchadas pelas andanças circulares, ter-lhe ao meu lado. Percebe que há movimento, na minha idade tal movimento é vida, na tua é ilusão. Fica aqui que é mais seguro. Só vá até onde não preciso dos óculos. Não me perca de vista. Se te deixo ir por descuido, me arrependo por cuidado. Quão emancipado és! Já podes andar com essas pernas brancas, marcando a areia, mas vou na frente, reforce meus passos, vem por aqui.
Espera um pouco, isso não combina, isso não te cai bem, todos verão, ninguém vai ver, esse não está bom, isso não é direito, não vai dar pé, não serve; são só sugestões, restritívas. Falo porque já sei. Que a sua queda me mata, que suas lágrimas em mim diluviam, que o seu fracasso em mim sangrou, que sua doença me deixa de cama, que os seus desamores me ensozinham, que o meu não te nega o pior. Porque és meu boneco, meu. E te moldo com esse amor que sei, podando pouco, os cabelos; e que tenta me explicar com o mesmo olhar curioso, medrosa de possibilidade, pois, não me permito aprender, então...Olha por essa fresta que te inauguro, antes tarde, o (teu) mundo perfeito.
E o boneco diz:
- Te amo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Amor caduco

Já sei
Ele vem tal hora
Nem abro um sorriso
Talvez alguns, contando o que fiz no dia,
Só.

Feito chuchu e creme de milho
não tem muita graça
mas é quentinho e enche barriga
Traçamos planos
Sem propulsão.

Como o prédio de primeiro andar
Que sentados na varanda
de pé direito altíssimo
o bairro é frio e pra esquentar os pés
meias, nada mais.

Mas que cabeça a minha!
esqueci a colcha de retalhos
na casa da avó.
Eu sei como é
e dou um beijo de pena na careca dos velinhos.

Talvez não,
porque aos domingos não vejo netos
mas filmes
que poderiam ser todos meus
Alugo-os.

Lá dentro é bom
Fora, esperado
Chorei ontem pelo equilíbrio
Tenho um medo
e um irmão
tudo isso...

sábado, 24 de maio de 2008

De jogo

Sim, ele foi gravemente ferido. Um tiro no pé.
Quantos caminhos suntuosos e nãos poderia receber. Além das cantigas de amor de um trovador sem tristeza. Um equilibrista, de segurança invejável. Nenhuma variação na voz. Havia diferença clara entre grave e agudo. Dormia feito pedra. Quando acordava lavava o rosto, molhado e austero, seu próprio rei em cômodo com trono, nunca incomodado, nunca. Fácil ver-se refletido, fácil missão calculadamente cumprida. (Sem prepotência) julgava-se bom.
Que forte é aquele que caminha em nossa direção. Não sabiamos de onde vinha. Nem sabiamos porque vinha, ou sabíamos. Perguntamos-lhe as horas e sem olhar as respondeu. E isso não é, ninguém quis conferir. Por isso perdera o menino. "Como é que ele cresceu!" diz a velha com a mão em seu ombro e não nas bochechas. Não importa como; cresceu. Notava-se faz tempo.
Notável rapaz, que sabia até o que não sabia, e insistia mesmo sem saber. Até que nos meados parou num jogo. Um jogo desses qualquer. E o invicto resolve que merece um pouco da diversão boba, permite a alienação já constatada. Pára diante da adversária, vê toda a superfície. Não se perca no tabuleiro, pensou com os botões. Abre um sorriso e ganha. Mas não é só. O olho coçava dentro da armadura, uma coceira fraca, engraçada, mas coceira. Levantou, bem pouco a parte que protegia dos olhos a luz, e aí viu.
N'outra feita tinha tempo e pode parar, houve o mesmo.
Então de novo, um tempo curto que sobrava, viu-se ali em frente à ela, e porque não?
Nem era de azar, mas viciou-se, vinha não pelo gosto, nem pelo ócio, nem a alienação, nem as peças, nem o tempo que esquecera. Vício de vir.
Eis que um dia ao acordar demorou pra vestir a armadura. Quis parar num dia inteiro, mas a engrenagem não permitiu. A dúvida infema do encontro funcionava.
Foi. Logo no cumprimento lembrou a armadura esquecida. E foi jogando, ele falso temeroso, ela pronta para perder. Iguais os dois (mas ela ria da derrota esperada, e falava, e gritava, errava, rodopiava, como sempre).
Cansou, era massante demais. A vitória fácil, previsível. Lembrou-se da arma que trazia sempre consigo, e desta não esquecera. Houve tempo, era a vez dela jogar, enquanto ela coloria as peças e brincava com os cabelos, ele carregou a arma, pronto para matá-la, ia ser fácil, imperceptível, insignificante, ninguém lembraria mesmo daquela (nem as partidas). Pronto ia ser assim, a última rodada. Dedo no gatilho. Um suor escorrido. Nenhuma voz.
Ela joga. Ele viu. Viu que ela joga assim mesmo. Há um estouro, ele vence a partida.
No caminho de volta, há passos manchados ainda frescos.

domingo, 18 de maio de 2008

Alarme

O tempo feito um pêndulo
Segundos infinitos grudentos
Gruta em dia lindo
Eternamente fria sem remédio

E olha: sentei na cadeira dura
Recostei no sofá mole
Deitei no colchão grande
Cochilei no banco do carona
Morrendo nessa cadeira que gira

Estou perdido em tempo
A tempo
Há tempo?
(ou) Já é tarde
Não durmo

Não acordo
Não tento
Nem quero
Inerte choro
Inerte sorriso

(Toca o alarme, arregala, não... é só o relógio)

sábado, 17 de maio de 2008

O novo sommelier

A boca hidratada com a saliva de mel. Os lábios quentes velejando toda a face. Calmo, de leve, nem sem tempo não há pressa. Assim, com todo cuidado, e dedos de vento. Toma-me como um sopro de coração batendo (em francês).Numa taça ambígua frágil; na cidade luz pela metade porque prefiro ver no escuro. Por lá, há um entendido que, sem mais nem menos, vem e subjetiva tudo. E chega a sede irremediável. Até quando num desses amanhãs lhe provarei mais um pouco.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Apenas um rapaz Latino-Americano"

E tem logrado no vasto mundo da percepção. E apreciado a beleza medonha do ócio. E destilado seu vasto quoeficiente inteligentóide em gente que aquilo não vai entender jamais. Porque o que o lúcido tem é a liberdade de um mundo inteiro pelos lados, mas prefere o mochilão nas entranhas. Acampado num corpo sem maus-tratos e sem exageros. Os pés sujos no leçol limpo e desarrumado. E a cabeleira deitada na fronha quente pensante, só nas boas filosofias. "Faça isso!" Ele faz, ou não. Desobedece ao comum e vive nele sem reclamar. Camuflado como uma coruja na noite fria da serra. Poucos reconhecerão e, de certo, muitos lembrarão do menino, para sempre menino. Crescente como tudo que brilha ali em cima, para sempre também.
Viva o músico!