domingo, 11 de maio de 2008

Box

Num banheiro incomum há um abajur, provém a única luz do lugar.
Disso não há qualquer antecedente, nasceu ali.
O chão frio sustenta o casal nu. Sentados os dois. Com tudo escorrendo bem longe dali.
Os diálogos em versos pensados deslizando pelo mesmo chão, para morrerem sem gozar de existência.
Em caixa de vidro, a água quente que chove nas costas, mancha a dela de vermelho, a dele não se vê.
Há um abraço desconfortável, nos corpos feios e sujos.
Há um beijo fraco nos lábios secos.
Há línguas chulas nos céus grenás.
Ainda há tempo.
Até que nada disso importe, o vapor inale tudo o que sempre houve. E as lágrimas salguem o dilúvio do desquerer.
Até que não se veja nada além da caixa antes lisa e disso não há qualquer futuro pensável, nasceu ali.
Cabelos molhados, é tudo feio. Deixa estar o chão que não é mais frio.
Abraçados:
-Me abraça. (não se sabe quem disse)
Continua até toda a água acabar.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Biografia do eu-lírico

Para ir daqui ali, flutuo.
Ás vezes penso que só esqueço quando já não me lembro, só que aí é rápido como pisar no chão, feito mola comprimida.
Tenho prazer em banho-maria, em doses tão mal divididas, chego a chorar pela felicidade, pelo calorzinho. Não, não tenho mais dúvidas de que esteja acelerado. Posso sentir. Atualmente aprendi a sentir sem saber, mesmo com a cabeça, a prática, a praxe...
Recompensa por uma única vez, em anos, eras.
Me jogo sem medo, de costas, e não grito, até chegar num céu de flocos espumados.
Se bem que ainda caio livre, e não me belisque!
Parece que estou de bem.

Aluado

Se a tristeza mesmo póstuma
Carrega por aí sua mortalha
Sob um lindo chocalho
Invisível, translúcido
Que, às vezes, me lembro de ouvir

Se em todas as noites
Por ser o único girassol murcho
Vislumbrei seu vestígio
Num outro telefonema
Numa carta de amor
Num passado pequeno, voador

Onde é que o homem procura
Até achar o guri
Porque a demora fria
Dura feito gema
No dia quente, tanto fiz que encontrei a saudade

Se ainda periga na tua mente
As minhas pétalas de lua
Clareando o antigo toque
A resposta se fez surda
Há quantas anda o grande amor?

domingo, 4 de maio de 2008

Dicionário

Sempre que bate um vento aqui e machuca a persiana eu fico a imaginar o quão vazio um homem pode ser.
Não que o fato provoque qualquer efeito reflexo, mas o barulho de umas batendo forte nas outras, pertubam a minha audição intacta no apartamento.
Não ouço música, não gosto. Não tenho bichos, sou alérgico. Meus pais moram cerca de 6 kilômetros daqui, não os vejo há 5 meses. Sou biológicamente são. Não gosto de homens, e minha sexualidade é enrustida. Minha mãe costumava amarrar meus sapatos lustrosos nos domingos de missa, só uso chinelos. Trabalho numa xerox, tiro cópias e mais cópias de assuntos que em nada me interessam. Minha chefe, ou chefa, não sei se a palavra permite a variação de gênero é louca por mim, às vezes deixa em cima da mesa fotos íntimas para que eu as amplie, quando meu trabalho se restringe a tirar xerox, e é o que de fato replico, quando ela solta os cabelos loiros e já gordurosos por um dia quente, soltando também um sorriso amarelo "é verdade esqueci, peço à Lídia". É engraçado como mulheres lindas conseguem sempre achar um ar misterioso em caras banais. Não poderia satisfazê-la, minhas banalidades são por demais egocêntricas. Não como há dois dias, sou magro, sei cozinhar macarrão, só macarrão, sem molho. Vomitei branco anteontem. Tenho dentes sensíveis, minha geladeira é cheia de água muito gelada, mesmo estando no mínimo. Sou um duro, tento escrever. Outro dia tentei escrever sobre os tijolos cor de carne. Mas não me encanta a literatura, um suposto amigo me disse isso. O que te encanta é a gramática, a fonética. Perguntei "porque achas isso?". Este respondeu que eu passei horas o indagando sobre a maneira correta da pronuncia tijolos, porque não tijôlos e sim tijólos. Respondi que as palavras me dão náusea. Menti. Eu até que gosto da coisa, mas quantos eus não param inúmeras vezes por dia com essas mesmas impertinentes questões, nada filosóficas. O que mais pode interessar o homem contemporâneo se não a filosofia. Não posso admitir que isso é tudo que posso pensar, e se sim, jamais faria Letras, coisa de bixa; bicha. Não tenho dinheiro para faculdade. Não tenho paciência pra estudos, misantropia e convenhamos não faço o tipo professor. Sei exatamente quantos bom dias, bons dias pronunciei até hoje. Eu pensei em me matar, mas não encontrei coragem, nem motivo. Não ando, vago. Não estou, nunca fui.
Há um culpado, claro! Isso há sempre, eu? Imagine. Segui a risca tudo que no particípio me foi dito, lido.


vida:
estado de atividade de animais e plantas;
existência;
espaço de tempo decorrido entre o nascimento e a morte;
modo de viver;
profissão;
emprego;
conjunto de coisas necessárias à subsistência;
biografia;
movimento;
calor;
subsistência;
sustentáculo;
origem.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Vida fácil

Vestia a meia arrastão preta que tinha um rombo no meio de todos aqueles buraquinhos, com sorte ninguém ia reparar que também a barra do vestido vermelho cetim era gasta e que o cetim de cima era um rubro mais rubro porque teve que alongar com outro pano.

Sempre onze e quinze, mais tardar onze e vinte saía. Abrir a porta e sentir a cidade murrinhenta e cruzar o terreiro de Pai Jorge, e passar pela praia ouvindo os olhares dos pescadores, vê um pessoal fazendo escondido o que ia fazer a noite toda. Uns até queriam, mas ela, às vezes, passava bem pra olhar na cara das galegas sujas de areia e já cansada, que não tinha mais amor na cidade baixa.

Não ia ter jeito, ia ter que pedir o dinheiro à gorda. Puta nojenta, mesquinha! A culpa era dela, toda dela, desde os dezesseis com essa velha me pagando o suficiente prum café fraco e umas guimbas de cigarro usadas das dondocas da cidade alta, aquelas piranhas. Nem Caetano, esse daí agora deu pra cantar à Sampa, tá certo, a vida sorri é mesmo pra uns. Só que a Diva pegou meu batom vermelho, fiquei sem.

- Ah Dona Juliane, vô dança hoji não, mande um direto.
- E porque é que tá com essa metideza, posso sabe? Tá de bode é?
- Será que a senhora me via um adianto esse mês, Luis chega tá já sem fralda.
- Que adianto o quê! Bote um batom vermelho e pare de bundiar por aí. Bora, Chispa!

Ela não tinha ritmo, as luzes eram muito fortes, lá de cima mal se via onde pisava. Aquela pretinha ali é nova, chega a gargalhar enquanto mostra o par de melõezinhos pontudos. Como é que os meninos iam tá em casa. (Luis Carlos de 3 e Filipi de 4 anos ficavam só com a vizinha tomando conta pra ver se o portão não ia se abri que nem da outra vez que teve que pegar um dos meninos já n'água)

O quarto tinha uma foto do Erasmo no teto. E ele dizendo que chegara o tremendão. Ela diz boa noite, ele a vira de costa, a puxa pelo emaranhado de cabelos negros, e mete atraz assim, sem nada, ela já não reclama, deixou o velho descansar por inteiros três minutos, depois diz baixinho "Ô seu Chico não da pro senhor dá uma ajudinha não? só esse mês só?" Chico responde com uma cusparada no chão.

O rombo na meia aumenta.
-Já deu três horas menina, pode ir indo que hoje dia de segunda tu já sabe que é fraco.

Fecha a cortina de missangas rosa choque, depois só vem a fuça; "Tome aqui esse dinheiro pros teus muleques."

Chora pelo menina, já que é enganoso, chora de dor, chora pelos seios caídos, pela meia rasgada, os calos da sandália pequena, Chora pela esmola, pela cusparada seca no chão, pelos filhos, pela velha, pela areia, chora pelo terreiro, chora até a vizinha.

- ô vidinha fácil essa tua chegando a essa hora einh - diz a vizinha - Assim até eu.
- Boa noite Gláucia, brigada aqui por vigiá.

Os meninos lá dentro já roncam. (de fome)

domingo, 27 de abril de 2008

Sobre o Rio antigo

Primeiro veio o dia, depois veio a noite, e embora pareça lógico, não me parece. Eu tive que emancipar minha vontade, eu consegui prender-me ao prosaico, como em luta de perdedor. Ante a combinação infundada, o meu céu clareou, e até não chegar lá não vi a lua.

Quando sento, meu lado direito perto do dele, um mínimo toque, um esbarrão, arrepiava. Que difíceis as palavras que não saem, não sei por que acontece. Depois o encaixe, daquelas bonecas de casa de vó, umas gordinhas que cabem perfeitamente em si, delas eu era a menor. Mas até que coube no abraço, e não só até, coube nos braços. Tive que baixar os ombros. Fui só avesso, cor de púrpura. Ali na cúpula podem todos passar e não vão ver, porque só eu sinto, nós, se me perdoa a analogia prepotente daqueles ávidos. Como é bom descansar na Lua. E eu que tive medo de ir, tudo aquilo até os planetas, devia ser o mesmo céu do nascimento. Ou seria exagero, e se for, este é típico mesmo, não há nada de novo, até os textos soam antigos, mas não ligo e vou escrever.

Seilarei, os paralelepípedos perdidos nas ruas, e eu ali, todos os postes contidos em luz, e eu ali, todas as esquinas andando e ele ali, nós ali. Mas o lirismo? Que permissão é essa? Que verdades foram ditas? Ainda há tempo pras palavras? Acabou o vinho, acabou a cerveja, ficou só a festa vazia, alguns confetes, alguns fugitivos, algumas dançarinas, outras gladiadoras, uns gatos pingados em suas fantasias noturnas, não fui à caráter e não me arrependo. Não há arrependimento, há insegurança, pequenez, medo, não sei, há um misto com a fragilidade enrustida e a quebra num beijo. Que beijo!

- Corre, corre... senão, não volta!

(não consigo.)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Chão

Deitada. Tudo que é sensorial fica inatingível no chão, menos a nuca esse vale crepusculento coberto por um manto de pele lisa e suada. Um rio fino que sai dos menores fios de cabelos e dançam por ela até um vale de seios e de repente se perde.
O corpo, como um corpo só anseia pelo toque daquelas mãos, tão cheias de respeito e profissionais, tão pouco curiosas, cheias de diretrizes, tão fartas de chão, tão lógicas, tão perfeitas em dedos, unhas, calos, pele, gordura, músculo, osso. Tão alheias.
Enfim, por lógica, será a última a ser tocada e nesse meio tempo a eternidade fracionada, só tende a aumentar com sua aproximação.
A cabeça pulsa. Ve-nha, Ve-nha, Ve-nha; o estômago explode em ácido para contrair tudo dentro, cada espasmo vulnerável o aguarda. Taquicardia, nervoso,e os pés desnudos gelados.(se somente os ventiladores giram? Quanto tempo há lá fora? Já escureceu? Como agir? O que dizer de esperto depois?) Vai esquecendo, vai brilhantemente esquecendo ali.
Ouvidos no chão, o eco dos passos, quantos mais? (merda de mente!)
Desiste, abre os olhos, espera pra ver diminuir. E pronto.Assim.
Primeiro os pés. Ele os vira para dentro. Deus! há poros nos pés que sentem. O toque que sobe os calcanhares, as panturrilhas e todos aqueles nomes, de todas aquelas partes tão bem divididas de mim.
Esse toque quebra a volúpia, quebrou o tântrico, deixou as mãos literalmente sobre a massa. Quanta tolice num toque severo. Fui errando ao pensar carinho.
Até que as mãos estratégicamente pousam, uma nas costas, outra na nuca. Que mãos!
Que acalmam, redimem, mãos que desculpam os pecados pensados, sem tornar inferior, mesmo sendo. Perdeu a vontade de puxá-lo para si, para dentro. Saciou-se em questões de segundo.
Se percebeu um amontoado de corpos sonolentos embalados em silêncio por uma rotação permanente, refletidos para si mesmos e conduzidos por um molde de homem viciante. Tão viciante que depois de toda inundação falsária dos sentimentos, afogou-se em paz.