Então enfiei os dedos de raiva nos ouvidos do barulho ensurdecedor da cidade. Como se pudesse comprimir toda a cabeça num grão minúsculo de cérebro (inútil) preso aos indicadores. As ruas de mim não se aliviam. Mas agora, enquanto os dedos funcionam ouço mais minha voz. E tagarelo sozinho em frente ao computador ligeiramente feliz por esquecer o meio-dia. Dedos para que os quero. E vou repetindo essa frase, repetindo, repetindo. Não me importo de molhar o teclado com a pouca cera que tinha, talvez por não ser um homem assim, polido. Começo a escrever uma história sobre uma moça. Dessas histórias que os próprios dedos pedem. Sucumbi a ela e à cidade. Pois imediatamente após tudo que ouço é um apertar nervoso de teclas grudentas.
Sou um homem pragmático sempre fui. Meu rosto é um mapeamento de livros que deixei de escrever, minhas rugas profundas apesar da pouca meia idade, se ramificam para sempre, sem nunca terem nascido, nem deixado de existir. Desde que existe espelho, existem folhas rasgadas. Parece que ao olhar-me refletido sou tão qualquer. Os músculos contraem-se a procura da expressão sisuda que me permita à frase perfeita. Eu não sou nada além de minhas palavras, também pouco valiosas. Por isso me alivio em textos ruins, poemas ruins, coisas pequenas que remediam do rosto as marcas de um mau escritor.
A tal moça é também escritora e para meu acalento, pouco talentosa, que se imagina boa e sai por aí com um ramalhete de continhos, distribuindo suas flores para pessoas, quase leitoras, em esquinas. Ai se suas palavras fossem tão boas quanto esta cena. Piegas e boas. Eu, pelo menos, entendo-me um mau letrista, assumo minha condição e só escrevo para antecipar a surdez seletiva. Escrevo em pouco tempo e sem revisão. E não porque me falte o primeiro, o tenho de sobra, bem como a moreninha da qual vos falo. Sou escritor por necessidade e não estética; falta-me o assunto morro, senão de tédio, de dia. Ela não, acredita ser indispensável. E os pergunto: como uma boa escritora mantém-se no anonimato? Como uma boa escritora não lhes desperta o mínimo interesse, tanto por sua obra quanto biografia? E por fim, pergunto-me a razão de escrever sobre um ser humano tão ordinário, em seu sentido benigno. E não obstante os respondo, pois talvez minha missão seja de fato afastar essa ânsia da moça pelo grandioso, pelo imprescindível, oferecendo-lhe uma homenagem, embora canhestra por sua existência. Mas a bem da verdade é que escrevo esperançoso, como um creme anti-rugas, pela descoberta da jovem ávida, e, por conseguinte da minha. Num golpe de sorte, quiçá mérito. Encontraríamos os dois a fama que nos coubesse. Comprar-nos-ia, pois outros espelhos. E terminaria a vida no meio do mato, fingindo ser alguém cansado de tanto, como já estou de tão pouco. Curtiria o prazer de toda escrita não publicada, escondido no Best-seller da mocinha sonhadora. Acredito que se o escritor comete a grande obra, todas as outras suas já adquirem credibilidade.
Os senhores devem estar se questionando que tipo de homem médio leva uma vida tão burra. Tendo em vista que a impressão que lhes passo agora, é a de um homem com seus trinta e poucos anos, que não produz nada de relevante e insiste nisso, por razões desconhecidas, almejando secretamente o reconhecimento através do desconhecimento de uma protagonista aleatória. Sim. Sou o tipo fracassado, que vive de renda (não lhes contarei necessariamente a fonte desta, pois só aumentaria o predicado já mencionado) que mal paga o aluguel de um apartamentozinho em um bairrozinho numa ruazinha muito, mas muito barulhenta. Sou o tipo que vive debruçado no computador, esperando lapsos de brilhantismo, e não tenho uma pança característica dos sedentários, pois como pouco e bebo menos ainda. Sabe que a moreninha também nunca teve caxumba, nem catapora, nem aquela outra que tem um nome esquisito que começa com érre. Não comemos nada verde. Acho que esses naturebas gostam mesmo é de sofrer. Noutro dia a menina foi ao médico porque tinha caído e torcido o pé, ele examinou-a, pediu alguns exames e vá entender esses mistérios da medicina moderna, pediu junto um exame de sangue. Ela tardou, mas cumpriu-os todos. De volta ao consultório, percebeu que não gostava de paredes rosa, rosa claro, na verdade não gostava de tons pastéis. Qualquer tom pastel. O que chega a ser esquisito já que de vibrante ela não tem nada. Gosto não se discute e a moça é perfeitamente saudável. Pronto, isto é basicamente tudo de relevante que sei dela. O resto da história são causos, que na minha humilde opinião supostamente imparcial são bem melhores que dados. Eles não serão muito cansativos, pois como já foi dito não costumo me prolongar nas histórias. Serei breve mesmo parecendo prolixo. É que às vezes, há um engarrafamento de idéias e com as buzinas que chegam da janela fica muito confuso organizar-se. Até porque, sempre começo um texto de forma - eu não diria ótima nem repleta de idéias, mas numa escala de um até dez em criatividade, eu ganharia seis, ou sete. Ok sete. Mas meu pragmatismo me acorrenta a planos, faço muitos planos. Aí já começo planejando o final da história de uma pessoa que não tem fim, no sentido de que a moça ainda não viveu feliz para sempre, e talvez, pobrezinha, nem viverá. Inclusive penso que isto pode depender de mim, mas não. Não posso acarretar-me essa importância. A moça vive, e eu planejando-lhe um fim. Planejo um fim para ela, um fim para mim, um fim para meu texto, e um fim para todos outros planos que por ventura venham a existir. E acreditem, eles virão.
Outra coisa que pode ter lhes vindo à cabeça é se a moça existe de fato. Mas acho que pode ser um recurso do escritor, manter esse mistério entre a realidade e a verossimilhança. É um recurso básico, talvez nem suscite a duvida. É que a moça é tão prosaica que pode ser muitas, quer dizer, ela não tem a capacidade de ser muitas, isso que eles chamam de versatilidade, isso ela não tem. No caso, ela poderia tanto ser ela, quanto muitas outras inversáteis. A moreninha existe senhores. Existe tanto quanto meus dedos versáteis neste teclado, e minhas idéias versáteis e inócuas na cabeleira suada. Pronto despi-me de mais um recurso da boa escrita.
Outro dia, ela sem querer deixou escapar uma frase até muito incisiva para os diálogos que proporciona. Droga de metalinguagem. Achei engraçado, ri muitíssimo. Ela disse isso como se tivesse propriedade pra dizer tamanha bobagem. Disse isso como o padeiro que diz droga de fermento vencido, não fermento vencido não, droga de farinha de rosca, porque gosto de metalinguagem. O bom padeiro pode reclamar da farinha. O bom padeiro tem gabarito. O bom padeiro pode até mesmo fazer bons textos com metalinguagem. Outro dia a menina fez um bolo, só que enquanto batia, lembrou que tinha esquecido o fermento. Ai foi procurar nos armários. Agradeceu pela casa pequena. Aqueles estavam cheios de cupim ou sujeira ela não soube direito. Costumava usar só a geladeira, morar sozinha é tão solitário até para os armários. Isso eu sei, mas por ser homem, camuflo a tristeza com o mau humor. Por fim, não encontrou o que queria e acabou tentando a sorte, sua amiga uma vez disse que fizera um bolo sem fermento. Todos os textos que esboçou naquele dia também solaram.
Não sintam pena ainda. Esse tipo de infortúnio acontece conosco, quase sempre. Porém, compadeçam-se previamente pela moça, pois lhes contarei sobre o desamor. Talvez narrá-lo seja um tanto complicado, porque não sou o tipo do homem sentimental. Eu mesmo, nunca me apaixonei. Acho mulheres chatas, de um modo geral. Querem que você se encaixe ao padrão delas, querem sempre moldá-lo com o tempo, mulheres adoram a imagem que elas tem de você e naturalmente essa imagem é tão absurda e mítica que aqueles bravios capazes de sustentar longos relacionamentos merecem a canonização. Não sou homossexual. Basicamente porque não penso o sexo como uma escatologia. Okey, os senhores me acham categórico e falastrão, tudo bem, porque grande parte disso é só banca (de jornal decretando falência).
O rapaz loiro de cabelos muito lisos estava parado no canto. Pela maneira como retirava a mecha que lhe caia nos olhos não estava ele sozinho por desventura, mas por opção. Ela dançava com um parceiro insignificante, ou melhor, sua despresença a causaria menos bolhas. No meio de um rodopio houve um instante de silêncio, olhos nos olhos, embora Cartola cantasse nas caixas de sons chiadas. Pronto, arranjava ali a moça seu par fixo. O subúrbio virou Paris num minuto. Luzes e cores e sons e mais luzes – ela escrevera esta frase num conto chamado Paixão, percebam o quão rudimentar é sua escrita, coitada, parafraseá-la me é um suplicio, mas deixa estar que ela ao ler isso aqui vai sorrir. Provavelmente, o rapaz encantou-se com suas risadas, é o que de melhor ela sabe fazer. Aliás, damas servem para isso, encher vazios de conversas com risadas. Ou damas ou blues. Eis que numa curva brusca na volta para casa o ônibus chacoalha o que já tinha lugar cativo (a culpa é sempre da cidade). Sabe estou cansado dessa coisa, desses ônibus, desse bairro, de toda essa gente. De mim? Ela pergunta, esperando o não. De você, talvez seja isso, estou cansado de você, saí da dança. E do ônibus (a cidade é tão imparcial) que continua sua rota até o ponto final. A menina chorou tanto que inundou sua casa, rabiscou os livros, depois comeu os lápis, as canetas, os dedos. Até esquecer, e rir do menino loiro que não batia a sua porta, mas só pensava em bater. Para mim, pensar em bater é pior que não bater, bem pior. Tudo em iminência é cheio de tantas coisas que não tem espaço pra coisa alguma. Quer dizer, fica por isso mesmo, a vontade do rapaz afinal, ficou tão banal quanto essa combinação de palavras. Sim senhores. A produção da moça foi altíssima durante o período pós-término, pobre de mim, para saber de tudo, e aumentar-lhes a riqueza de detalhes da história, gastei dias lendo tudo aquilo. Coitadinha, duplamente.
É interessante pensar no pós-termino. O que farei no pós-termino desse... não sei que nome dar a isso aqui. O que farei eu no pós-termino? O que os senhores farão no pós-término?
Penso que o que vale na vida são planos, porque a realidade é chata e os planos são os sonhos, masculinos. Sonho, claro. Mas não fico por ai sonhando feito a morena, tenha paciência. Só quando durmo e quando lembro, fora isso planos.
Pois é, estou começando a ficar repetitivo, isto é sinal de barulho brando, de pouco tráfego, ou barriga vazia, ou sono, ou sinal de que não conseguirei transformá-la em nada de relevante.
Desculpe moça, falhei com você. Não que tivesse prometido o mundo, sabes disso, mas, honestamente esperava ao menos um bom término, enganei-me, meus cabelos também são loiros. Gostaria eu de ser um homem otimista, mas seus textos não são ótimos, desculpe-me, vá arranjar um trabalho de verdade, vá. Algum de nós dois merece um pouco de sucesso. Vejo você chorar baixinho, permeando meu coração contigo, quero voltar ao início reescrevê-la. És grande, és grande moça. No entanto, não posso, sabes que não adiantaria dar-me ao trabalho. Minhas palavras são vãs.
Sorria morena. Case-se com um grande escritor. E por favor, esqueça estas linhas.
Perdoe-me. (não pode ser!) Te amo.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Azul muito escuro
E de repente quero escrever sobre o medo que fica escondido na parte escura atrás da pele, dentro dos órgãos, diluído no sangue. Pra esquecer a angústia de pensar que lá dentro só mesmo, medo. Das coisas que choramos enquanto crianças, e depois engolimos. Se há dor em viver no incerto, é aquele que mora nas entranhas. Já que o alívio do grito não é o grito. Já que o alívio do pulo não é o pulo. É ainda outra forma de choro. Lágrima moderna de torneira seca. Pois a própria culpa da vida está no pleno, no máximo. A culpa é do azul. Quando no fundo, porque ele existe, sabemos que é preto, ou melhor, que também é preto. Viver requer menos misancene, pra ser mais úmido, mais aflorado. Com o todo encanto de poder tremer.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O verde palha
Então a caminhada entediou e eles se sentaram no canteiro.
A: Aqui é nosso epicentro, nosso ponto médio. Se saíssemos de nossas casas ao mesmo tempo chegaríamos aqui juntos.
B: Sou mais rápido, talvez fosse daqui a duas quadras. Pelo menos seu caminho é mais curto. Não me agradam muito esses seus passeios, quer dizer talvez agradem.
A: Hoje entrou um bicho no meu olho esquerdo.
B: Como assim bicho? O que você tava fazendo?
A: Falando com o Caio no telefone.
B: Será que amanhã você vai acordar com remela no olho?
A: Aí eu comecei a gritar, Caio me ajuda entrou um bicho no meu olho! Me salva!
B: Porque eu sempre acho que remelas são tipo os anticorpos do olho todos juntos e verdes. Por exemplo, as crianças criam muitos anticorpos e muitas remelas, e poucos problemas na vista, pelo menos que eu saiba.
A: Você conhece quantas crianças?
B: Porra muitas, né?
A: Quantas?
B: Sei lá... Meu sobrinho?
A: E a partir dele você chegou a essa conclusão?
B: Não. Isso é quase uma verdade universal. Você que conhece muitas crianças. Você que ama criancinhas. Não repara nas remelas delas?
A: Rimas riquíssimas. Reparo. Eu estudei na segunda série com um menino que chamava Raul, ele tinha muitas remelas presas nos cílios de cima, não sei como podia, esquisito sabe? E também ele não era tão criança assim.
Enquanto ela amarrava os cadarços do tênis vermelho, ele procurava o isqueiro. Tudo muito mecânico. Todos os gestos dentro de potes de vidro. Eram dois insetos em potes diferentes, um ao lado do outro, sobre a grama seca do canteiro. E nem paravam pra se olhar dentro dos vidros. Era medo. Aí falavam uma fala que não dizia nada, e aprofundavam sem querer, só preenchiam o tempo de coisas à toa. Ali o silêncio que mais dizia.
B: Então...
Com o cigarro aceso.
A: Então?
A: Sabe, você acha que Hiroshima estava calada antes de morrer?
B: Você não precisava desse sabe. Porque não perde esses vícios, sua oralidade é feia.
A: Acha?
B: Que Hiroshima é? A da bomba?
A: É!
B: Não sei, caiu que horas?
A: Acho que pela manhã.
B: Tipo sete da manhã ou onze? Há uma diferença de quietude aí, manhã é muito abrangente.
A: Sei lá, sete vai.
B: Calmo então. Devia estar espreguiçando.
A: É devia.
B: Por quê? Porque é importante?Devastou mesmo, acabou com tudo, como estava não me parece importante.
A: É importante.
B: Eles tinham evacuado um pouco a população sabia?
A: Hum...
B: Tá. É importante. Que você acha?
A: Concordo.
B: Só?
A: Faz diferença?
B: Não.
Um passarinho pousou no segundo andar de um prédio rosa clarinho em frente e bebeu a água que tinha janela. Depois saiu voando rápido. Ele não prestou atenção. Ela forçou bem pouco o olho esquerdo embaçado pra ver três segundos de pássaro.
B: Mas será que a bomba faz barulho na hora que ta caindo?
A: Não sei. Eu imagino um barulho fininho, sabe uns que irritam cachorro?
B: Me irritam um pouco.
A: Por isso.
Os dois riem alto e ecoa. Não teve tanta graça. Não teve graça nenhuma.
B: Caralho, que merda!
Um inseto se mexe tanto que o pote cai, e fica deitado na grama. O outro percebe e não olha. E o direito enxerga perfeitamente, não está embaçado, não custa nada. Seria só ver. Mas não. Periga desequilibrar também. Ela não quer.
A: Sabe...
B: Quê? Fala.
A: Não sei eu...
B: Eu também não, te juro, eu também não.
A: É mais, é mais que não saber.
Ela fala como se ensaiasse. Um olhar perdido, perdido dentro.
Ele senta. Sai do frasco.
B: Sabe que que é dona sabe, é que to puto. E não deveria, mas to puto contigo, pronto.
Passa um carro carregando uma musica altíssima que tudo tão quieto acordou.
A: Que bom que nós dois odiamos música eletrônica.
B: Ah cara, foda-se. Vou voltar pra casa.
A: Por quê?
B: Tá chato aqui.
A: Tá? Achei que você pudesse gostar.
B: Não gosto.
A: Posso voltar com você?
B: Mas você vai pra lá. Que foi ta querendo dar uma de saudável?
A: Não, to querendo dar uma.
Não sabe se foi o carro, a bomba, ou a frase. Ele deu de ombros e saiu. Sentada, ela pode ver as costas se afastando. Ainda perto.
A: Seu tênis ta desamarrado, sabe?
B: NÃO SEI. NÃO SEI MAIS DE PORRA NENHUMA.
A: Ei, escuta. Olha aqui.
Ele se vira, e esconde o rosto no joelho, talvez pra amarrar o tênis. E dali mesmo “Fala”.
A: Porra. Eu queria falar tudo de uma vez, mas aí você vem e eu não consigo. Mas eu sempre consegui. Essa verborragia não me serve de porra nenhuma. Fico puta sabe? Quando que isso me foi útil caralio? Nunca. Nunca!
B: Só?
É, de fato uma pena. Eu vou pra casa, depois a gente conversa, eu te ligo, sei lá. Tchau.
(A: Espera! Volta! Eii, vem cá. Faltou a parte que eu imploro, a parte que esmolo teu toque.Por favor! Vem. Vem você ganhou, você ganhou! Eu perdi, perco, não me importo. VEM!)
Ela grita o nome dele. Ele vira tão repleto de sentimentos que por serem muitos nem valem a descrição.
A: Me liga?
A: Me liga pra sempre?
A: Aqui é nosso epicentro, nosso ponto médio. Se saíssemos de nossas casas ao mesmo tempo chegaríamos aqui juntos.
B: Sou mais rápido, talvez fosse daqui a duas quadras. Pelo menos seu caminho é mais curto. Não me agradam muito esses seus passeios, quer dizer talvez agradem.
A: Hoje entrou um bicho no meu olho esquerdo.
B: Como assim bicho? O que você tava fazendo?
A: Falando com o Caio no telefone.
B: Será que amanhã você vai acordar com remela no olho?
A: Aí eu comecei a gritar, Caio me ajuda entrou um bicho no meu olho! Me salva!
B: Porque eu sempre acho que remelas são tipo os anticorpos do olho todos juntos e verdes. Por exemplo, as crianças criam muitos anticorpos e muitas remelas, e poucos problemas na vista, pelo menos que eu saiba.
A: Você conhece quantas crianças?
B: Porra muitas, né?
A: Quantas?
B: Sei lá... Meu sobrinho?
A: E a partir dele você chegou a essa conclusão?
B: Não. Isso é quase uma verdade universal. Você que conhece muitas crianças. Você que ama criancinhas. Não repara nas remelas delas?
A: Rimas riquíssimas. Reparo. Eu estudei na segunda série com um menino que chamava Raul, ele tinha muitas remelas presas nos cílios de cima, não sei como podia, esquisito sabe? E também ele não era tão criança assim.
Enquanto ela amarrava os cadarços do tênis vermelho, ele procurava o isqueiro. Tudo muito mecânico. Todos os gestos dentro de potes de vidro. Eram dois insetos em potes diferentes, um ao lado do outro, sobre a grama seca do canteiro. E nem paravam pra se olhar dentro dos vidros. Era medo. Aí falavam uma fala que não dizia nada, e aprofundavam sem querer, só preenchiam o tempo de coisas à toa. Ali o silêncio que mais dizia.
B: Então...
Com o cigarro aceso.
A: Então?
A: Sabe, você acha que Hiroshima estava calada antes de morrer?
B: Você não precisava desse sabe. Porque não perde esses vícios, sua oralidade é feia.
A: Acha?
B: Que Hiroshima é? A da bomba?
A: É!
B: Não sei, caiu que horas?
A: Acho que pela manhã.
B: Tipo sete da manhã ou onze? Há uma diferença de quietude aí, manhã é muito abrangente.
A: Sei lá, sete vai.
B: Calmo então. Devia estar espreguiçando.
A: É devia.
B: Por quê? Porque é importante?Devastou mesmo, acabou com tudo, como estava não me parece importante.
A: É importante.
B: Eles tinham evacuado um pouco a população sabia?
A: Hum...
B: Tá. É importante. Que você acha?
A: Concordo.
B: Só?
A: Faz diferença?
B: Não.
Um passarinho pousou no segundo andar de um prédio rosa clarinho em frente e bebeu a água que tinha janela. Depois saiu voando rápido. Ele não prestou atenção. Ela forçou bem pouco o olho esquerdo embaçado pra ver três segundos de pássaro.
B: Mas será que a bomba faz barulho na hora que ta caindo?
A: Não sei. Eu imagino um barulho fininho, sabe uns que irritam cachorro?
B: Me irritam um pouco.
A: Por isso.
Os dois riem alto e ecoa. Não teve tanta graça. Não teve graça nenhuma.
B: Caralho, que merda!
Um inseto se mexe tanto que o pote cai, e fica deitado na grama. O outro percebe e não olha. E o direito enxerga perfeitamente, não está embaçado, não custa nada. Seria só ver. Mas não. Periga desequilibrar também. Ela não quer.
A: Sabe...
B: Quê? Fala.
A: Não sei eu...
B: Eu também não, te juro, eu também não.
A: É mais, é mais que não saber.
Ela fala como se ensaiasse. Um olhar perdido, perdido dentro.
Ele senta. Sai do frasco.
B: Sabe que que é dona sabe, é que to puto. E não deveria, mas to puto contigo, pronto.
Passa um carro carregando uma musica altíssima que tudo tão quieto acordou.
A: Que bom que nós dois odiamos música eletrônica.
B: Ah cara, foda-se. Vou voltar pra casa.
A: Por quê?
B: Tá chato aqui.
A: Tá? Achei que você pudesse gostar.
B: Não gosto.
A: Posso voltar com você?
B: Mas você vai pra lá. Que foi ta querendo dar uma de saudável?
A: Não, to querendo dar uma.
Não sabe se foi o carro, a bomba, ou a frase. Ele deu de ombros e saiu. Sentada, ela pode ver as costas se afastando. Ainda perto.
A: Seu tênis ta desamarrado, sabe?
B: NÃO SEI. NÃO SEI MAIS DE PORRA NENHUMA.
A: Ei, escuta. Olha aqui.
Ele se vira, e esconde o rosto no joelho, talvez pra amarrar o tênis. E dali mesmo “Fala”.
A: Porra. Eu queria falar tudo de uma vez, mas aí você vem e eu não consigo. Mas eu sempre consegui. Essa verborragia não me serve de porra nenhuma. Fico puta sabe? Quando que isso me foi útil caralio? Nunca. Nunca!
B: Só?
É, de fato uma pena. Eu vou pra casa, depois a gente conversa, eu te ligo, sei lá. Tchau.
(A: Espera! Volta! Eii, vem cá. Faltou a parte que eu imploro, a parte que esmolo teu toque.Por favor! Vem. Vem você ganhou, você ganhou! Eu perdi, perco, não me importo. VEM!)
Ela grita o nome dele. Ele vira tão repleto de sentimentos que por serem muitos nem valem a descrição.
A: Me liga?
A: Me liga pra sempre?
domingo, 26 de outubro de 2008
Cor sem nome
Mais um ano na vida começa. Eu fecho os olhos apertados, e como quem acredita penso um mesmo pedido, amor. Um novo amor. Amor só meu. Um cheio de coragem. Um onde eu não caiba nas asas, porque pra mim chega de terra, quero voar junto. Um amor cheio de coisa. Que me divirta. Que me convide sem tempo. Que queira dançar. Que ria do meu riso farto. Que conte antes as pétalas das flores. Amor que arrepie e que molhe. Um que não se assuste com o tanto. Um que não tema a forma. Um que queira mais. Meu amor vai ter sede. Um que entenda o fim, e não queira. Um amor já moldado. A outra peça do Lego. A cereja. Um que tenha barba e tenha cabelos e tenha costas e tenha unhas. E me tenha nas mãos. Um que me leia. Não quero um amor cansado. Nem um amor espelho. Nem um metonímia. Meu amor não vai ficar decifrando, já nasceu sabendo qual sou. Um amor que compense toda a espera.
Só quero alguém. Pra colorir.
Só quero alguém. Pra colorir.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Arrepio
Como posso arruinar todos os planos do imaginário? Como? As vontades me são tão fugazes quanto numerosas. Se conseguisse haveria cautela. Seria só adicionar um pouco da preguiça característica ao turbilhão que tenho dentro. Não existe em mim a capacidade de suprimir desejos, já que estes como um todo, são só anseios muito íntimos. E nem são grandiosos. Ou talvez sejam, não faz diferença, eles raramente se movem. As coisas que quero são madrugada, só existem no escuro.
Tudo embriagado de bom senso manda conter-se. Tem muito não por aí. Por isso, às vezes, grito tudo que quero. Foda-se. E depois vem o que muitos chamam de arrependimento, não acho que seja o caso, para mim mais parece um desperdício de mistério. O que me estraga é a pressa, a avidez, a coceira por coisas que no fundo sei não-possiveis. Pois são obviamente possíveis aos mais afortunados. Sou pouco pra tanto, vivo a contradição de impulsos pré-meditados. Vivo a carência de charme.
Eu sei que o tempo faz murchar os jardins, querem podados ou não. O meu faz jus ao segundo. Floresço muito a mente. E não. Não beiro a porra-louquice, tampouco a loucura. Sã. Sã como um choro, sozinho e lúcido, lotado de melodia e suspiros. Talvez me falte algo. Talvez o tenha de sobra. A conclusão que chego mais parece um aviso. Escutem tudo o que tenho a dizer com a flor da pele. Na superfície profunda. Nem mais, nem menos.
Tudo embriagado de bom senso manda conter-se. Tem muito não por aí. Por isso, às vezes, grito tudo que quero. Foda-se. E depois vem o que muitos chamam de arrependimento, não acho que seja o caso, para mim mais parece um desperdício de mistério. O que me estraga é a pressa, a avidez, a coceira por coisas que no fundo sei não-possiveis. Pois são obviamente possíveis aos mais afortunados. Sou pouco pra tanto, vivo a contradição de impulsos pré-meditados. Vivo a carência de charme.
Eu sei que o tempo faz murchar os jardins, querem podados ou não. O meu faz jus ao segundo. Floresço muito a mente. E não. Não beiro a porra-louquice, tampouco a loucura. Sã. Sã como um choro, sozinho e lúcido, lotado de melodia e suspiros. Talvez me falte algo. Talvez o tenha de sobra. A conclusão que chego mais parece um aviso. Escutem tudo o que tenho a dizer com a flor da pele. Na superfície profunda. Nem mais, nem menos.
domingo, 19 de outubro de 2008
De mostarda à cinza
Chove, domingo à tarde, os dois apartamentos são nublados. Ele deitado no sofá mostarda com uma samba canção preta de seda. Ela sentada no sofá vermelho, tem pés de tigre e um blusão preto, acende um cigarro e liga; ele estica a mão e atende.
A: Oi
B: Diga-me.
A: Como ta tudo aí?
B: Cinza e ai?
A: Também
B: Deixa-me adivinhar... Você ta com as pantufas?
A: e um blusão preto.
B: To com frio.
A: Se cobre com almofada.
B: To ocupado.
A: domingo?
B: Não... to fazendo um chá
A: Que viadinho!
B: Me ligou pra quê?
A: Nada
B: To ocupado, depois te ligo.
A: Você nunca liga depois
B: É mesmo. Desculpa.
A: Tá. Não quero desligar.
B: E se o apartamento pegar fogo? Você vai ser a culpada sabia?
A: Mas você não vai morrer. Você mora no primeiro andar é só pular pela janela.
B: Redundante. Mas ai eu teria que desligar, e você não quer, e eu sou solicito.
A: Muitíssimo. Você pode virar o duas caras.
B: Não gosto de quadrinhos. Você sabe.
A: Sei.
Ele estica a mão e acende um cigarro.
A: Você é multifuncional ta vendo só? Jamais queimaria.
B: Como sabe que eu acendi cigarro?
A: Vodu.
B: Magia negra.
A: Macumba.
B: Perdi!
A: Nossa que burro, dá zero pra ele!
B: Ontem terminou de ver o filme?
A: Sim. O Bergman consegue ser mais chato que domingo.
B: Só viste um?
A: Não, depois vi O Homem da máscara de ferro.
B: Puta clássico meu! Depois que desligamos ontem bebi pra caralio e vi Taxi.
A: Beber uísque no sábado solitário, bonito. E Scorsese é ótimo.
B: Não... É aquele da Gisele Bündchen.
A: Puta que pariu.
B: É.
B: Tenho que comprar um telefone sem fio.
A: To gastando rios de telefone com você.
B: Adoro gastar rios.
A: Mares
B: Lagoas.
A: Chuva.
B: Perai...
A: ô não vale! Perdeu!
B: Oceano.
A: Cachoeira
B: Merda! Você nunca admite a perda, né?
A: Com você não, sou melhor que você.
B: Tá, então vou lá ver meu chá.
Ela senta no chão, no carpete, sozinha, pois tem alergia a pelo de gato, e cachorros babam.
A: Quero ir aí.
B: Quer trepar?
A: Porra, porque você é sempre casual, sua casualidade me irrita.
B: Você é melhor que eu.
A: Eu sei disso, e que se foda.
Silêncio no frio de meio minuto.
B: Sabe o que é nojento?
A: Quê?
B: Uns bichos que ficam rastejando, tinha um no banheiro.
A: E eu?
B: Você o que?
A: Eu pareço uma minhoca pra você? Por você?
B: Cara não fala merda, que frase ridícula.
A: Eu acho que você sabe que sim.
B: Cara ta vendo só? Perdeu o lirismo da conversa, ficou chata.
A: Como assim perdeu o lirismo? Porra, perdeu o lirismo quando você falou trepar.
B: Mulherzinha você einh?
A: Mulherzinha teu cú.
A: Perai, tão me ligando no celular.
Enquanto isso, ele levanta, desliga o fogo. Prepara o chá numa xícara sépia. Abre o armário. Não tem torradas, nem biscoito maisena. Só Gim. Gim então. E volta à sala. A sala parece mais cheia. Mais mostarda que nunca. “Porque tem visita”. Puxou a mesa pra perto. Sentou. Abriu a garrafa. Encheu o copo. Cheirou o chá. Cobriu-se de almofadas. Por fim, telefone.
B: Pronto!
A: Pronto?
B: Parece mais cheio com você aqui. Quem era?
A: O que ta bebendo?
B: Chá e Gim quer?
A: São seus amigos Japoneses?
B: Não o apelido das minhas bolas, nossa suas piadas são péssimas!
A: Sim, porque as suas são boas.
B: Um metro e meio de pura ironia.
A: Deixa de ser babaca. To de saída.
B: Não quero que venha hoje, sério, desculpa, mas é que to muito em mim.
A: Ta muito em si? Okey, eu ia sair com a Thaty, vamos tomar um vinho aqui na esquina.
B: Sério? Vou também.
A: Você é afim da Thaty né?
B: Tá louca?
A: Não quero que você vá!
B: Meu, eu não to afim da Thaty!
A: Ta bom.
B: Já estão indo?
A: Não.
B: Me liga quando tiver saindo?
A: Eu já to contigo no telefone, vou é desligar.
B: Então vou trocar de roupa. Você vai de blusão?
A: Vou, e você não.
B: Não, acho péssimo sair de blusão.
A: Não vai! Vou me encontrar com o Caio, pronto. Caralio que saco!
(B: Piranha! Sua filha da puta, você não um pingo de vergonha na cara, eu devia ir lá atrapalhar sua foda. Sempre que tá frio você quer um corpo. Coitado do cara, não sabe nem o que ta comendo. Pelo preço de um vinho merda. Você é melhor que eu? Há é melhor que eu sim. Você nunca mais vai me ter, isso sim. Não quero mais perder meu tempo nessas ligações ridículas. Burra, Vadia, Gorda, Filha da puta, Escrota... E a lista não pára.)
(A: Odeio a porra do Caio, você sabe, queria ir prai. Quero você-domingo. Quero você-segunda. Eu quero até você-sexta-feira-ànoite-dispensando-programas-irrecusáveis. Eu quero você. E você só você-você. Burro! Eu poderia te amar.)
B: Calma! Era só você ter me dito antes né? E olha vai sem blusão, porque é brochante, deveras.
A: Pode deixar! Quando voltar te ligo!
A: Aloooou? Quando voltar te ligo, okey?
A: Ei morreu? Vou te ligar na volta!
B: Tá. Liga. Beijo.
A: Queijo.
A sala, de mostarda à cinza.
A: Oi
B: Diga-me.
A: Como ta tudo aí?
B: Cinza e ai?
A: Também
B: Deixa-me adivinhar... Você ta com as pantufas?
A: e um blusão preto.
B: To com frio.
A: Se cobre com almofada.
B: To ocupado.
A: domingo?
B: Não... to fazendo um chá
A: Que viadinho!
B: Me ligou pra quê?
A: Nada
B: To ocupado, depois te ligo.
A: Você nunca liga depois
B: É mesmo. Desculpa.
A: Tá. Não quero desligar.
B: E se o apartamento pegar fogo? Você vai ser a culpada sabia?
A: Mas você não vai morrer. Você mora no primeiro andar é só pular pela janela.
B: Redundante. Mas ai eu teria que desligar, e você não quer, e eu sou solicito.
A: Muitíssimo. Você pode virar o duas caras.
B: Não gosto de quadrinhos. Você sabe.
A: Sei.
Ele estica a mão e acende um cigarro.
A: Você é multifuncional ta vendo só? Jamais queimaria.
B: Como sabe que eu acendi cigarro?
A: Vodu.
B: Magia negra.
A: Macumba.
B: Perdi!
A: Nossa que burro, dá zero pra ele!
B: Ontem terminou de ver o filme?
A: Sim. O Bergman consegue ser mais chato que domingo.
B: Só viste um?
A: Não, depois vi O Homem da máscara de ferro.
B: Puta clássico meu! Depois que desligamos ontem bebi pra caralio e vi Taxi.
A: Beber uísque no sábado solitário, bonito. E Scorsese é ótimo.
B: Não... É aquele da Gisele Bündchen.
A: Puta que pariu.
B: É.
B: Tenho que comprar um telefone sem fio.
A: To gastando rios de telefone com você.
B: Adoro gastar rios.
A: Mares
B: Lagoas.
A: Chuva.
B: Perai...
A: ô não vale! Perdeu!
B: Oceano.
A: Cachoeira
B: Merda! Você nunca admite a perda, né?
A: Com você não, sou melhor que você.
B: Tá, então vou lá ver meu chá.
Ela senta no chão, no carpete, sozinha, pois tem alergia a pelo de gato, e cachorros babam.
A: Quero ir aí.
B: Quer trepar?
A: Porra, porque você é sempre casual, sua casualidade me irrita.
B: Você é melhor que eu.
A: Eu sei disso, e que se foda.
Silêncio no frio de meio minuto.
B: Sabe o que é nojento?
A: Quê?
B: Uns bichos que ficam rastejando, tinha um no banheiro.
A: E eu?
B: Você o que?
A: Eu pareço uma minhoca pra você? Por você?
B: Cara não fala merda, que frase ridícula.
A: Eu acho que você sabe que sim.
B: Cara ta vendo só? Perdeu o lirismo da conversa, ficou chata.
A: Como assim perdeu o lirismo? Porra, perdeu o lirismo quando você falou trepar.
B: Mulherzinha você einh?
A: Mulherzinha teu cú.
A: Perai, tão me ligando no celular.
Enquanto isso, ele levanta, desliga o fogo. Prepara o chá numa xícara sépia. Abre o armário. Não tem torradas, nem biscoito maisena. Só Gim. Gim então. E volta à sala. A sala parece mais cheia. Mais mostarda que nunca. “Porque tem visita”. Puxou a mesa pra perto. Sentou. Abriu a garrafa. Encheu o copo. Cheirou o chá. Cobriu-se de almofadas. Por fim, telefone.
B: Pronto!
A: Pronto?
B: Parece mais cheio com você aqui. Quem era?
A: O que ta bebendo?
B: Chá e Gim quer?
A: São seus amigos Japoneses?
B: Não o apelido das minhas bolas, nossa suas piadas são péssimas!
A: Sim, porque as suas são boas.
B: Um metro e meio de pura ironia.
A: Deixa de ser babaca. To de saída.
B: Não quero que venha hoje, sério, desculpa, mas é que to muito em mim.
A: Ta muito em si? Okey, eu ia sair com a Thaty, vamos tomar um vinho aqui na esquina.
B: Sério? Vou também.
A: Você é afim da Thaty né?
B: Tá louca?
A: Não quero que você vá!
B: Meu, eu não to afim da Thaty!
A: Ta bom.
B: Já estão indo?
A: Não.
B: Me liga quando tiver saindo?
A: Eu já to contigo no telefone, vou é desligar.
B: Então vou trocar de roupa. Você vai de blusão?
A: Vou, e você não.
B: Não, acho péssimo sair de blusão.
A: Não vai! Vou me encontrar com o Caio, pronto. Caralio que saco!
(B: Piranha! Sua filha da puta, você não um pingo de vergonha na cara, eu devia ir lá atrapalhar sua foda. Sempre que tá frio você quer um corpo. Coitado do cara, não sabe nem o que ta comendo. Pelo preço de um vinho merda. Você é melhor que eu? Há é melhor que eu sim. Você nunca mais vai me ter, isso sim. Não quero mais perder meu tempo nessas ligações ridículas. Burra, Vadia, Gorda, Filha da puta, Escrota... E a lista não pára.)
(A: Odeio a porra do Caio, você sabe, queria ir prai. Quero você-domingo. Quero você-segunda. Eu quero até você-sexta-feira-ànoite-dispensando-programas-irrecusáveis. Eu quero você. E você só você-você. Burro! Eu poderia te amar.)
B: Calma! Era só você ter me dito antes né? E olha vai sem blusão, porque é brochante, deveras.
A: Pode deixar! Quando voltar te ligo!
A: Aloooou? Quando voltar te ligo, okey?
A: Ei morreu? Vou te ligar na volta!
B: Tá. Liga. Beijo.
A: Queijo.
A sala, de mostarda à cinza.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Bom inferno astral
Quando não sei o que dizer existe um problema seríssimo. Quando ao me ouvirem não souberem distinguir o que é futilidade expressa e seriedade sobre basicamente amor, é porque não sabem meu quanto. Se pudesse prolongaria minha escrita em agradecimentos, mas isso é chato e pouco rentável. Se pudesse escreveria sobre a beleza no olhar, sobre o calor de dentro, mas isso é batido. Se pudesse ser outra coisa talvez fosse morar na lua, talvez fosse atriz, dançarina, modelo e puta, talvez fosse melhor do que passar madrugadas dentro de páginas. Acarreto-me um valor tantas vezes desconhecido e outras tantas burro. Como uma vez me disseram, você não cabe em si. Achei tão bonito, guardei como um troféu em prateleiras gordas, depois achei triste, por estar guardado. Eu sou tão eu que tenho medo. E essa leitura é de fato chata, é mesquinha e dispensa os africanos sofredores, dispensa Bach, dispensa o asfalto esburacado, dispensa o grande para ser atenta a alguma coisa mais minha. A repetição do tema não é falta de criatividade, mas a inesgotabilidade deste. Pode ser pedante, o é, mas viver só dentro de mim aborrece. Invejo a ficção, invejo tanto a boa ficção... Amanhã comprarei um repelente para matar mosquitos, e nem tive a chance de dizer que um chamava-se John e o outro Brian e que tinham um amor implícito homossexual americano do norte. Um conto chato e sem clímax. “Não gozo há dias” parece real. Suscita a dúvida entre o verossímil e a verdade. Pronto um bolo de coisas descartáveis. Um mosquito me mordeu na testa. Juro!
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