sexta-feira, 11 de abril de 2008

Àvó

Dê-me um bom motivo pra viver que não doa. Dê-me mais que a fé, não me dê metafísico. Dê-me um bom motivo pra passar de víscera, à gente e a pó, víscera minha que eu vi crescer, que eu fiz crescer, porque dói. Dói dor sem remédio, dói dor de se perder por aí, dor passada a ferro na carne de boa memória. E a superfície era morena, e era teimosa, e tinha problemas, que toda a gente criticava. E que eles não me ouçam, mas era a preferida. Dentre os outros, que todos não dão um só, ela só. Só ela.
Há um tempo pro esquecimento, tempo pras fraturas, para as quebras. Não vou nada bem porque não movimenta, só por vê-la imóvel; sem ela não move. Sem o cheiro das fraldas, das anáguas, das meias, dos tênis, das chaves, da filha.
Estiletizando todas as minhas vontades. O xorume nas ruas saem dos meus olhos. Saem da matriarca amputada, da Maria não virgem, não ave, não hosana, Maria horror, Maria dor, Maria terra, Maria miserável, Maria anti- letárgica, Maria enganosa, Maria viva, viva por punição, Maria ainda viva, Vazia, se Maria Morta.


domingo, 6 de abril de 2008

Mudança no tempo

Tava quente
Quando veio o frio
Frio velho
Frio triste
Veio vindo
Veio raso

Teve chuva
Teve choro
Teve frio
Foi indo
Foi ligeiro

Teve sono
Teve pressa
E preguiça
Teve um nó
Afrouxou sorrindo

Teve quente
Ficou frio
Mentiu cinza
Foi ligeiro
Para hoje que não ontem

Só amor

Deixa assim mesmo, já que tudo acaba um dia. Porque o eterno é falso. E se ainda é funcional nosso romance, e se o prazer, ainda que pouco, ajude. Depois de um tempo não mais se arrancam os botões, nem por descuido nem por cuidado, mas preguiça. Tudo era botão antes de florescer e ficar seco. Tem medo de nem ter mais o botão na memória. A manteiga ta aqui, o relógio ta ali, o isqueiro ta lá dentro e as chaves tão no bolso esquerdo do paletó cinza no armário dos fundos na porta do meio. Mas só sabe isso, e nem quer saber. Já que as noites não são mesmo no escritório, e ele sempre soube onde estavam os potes que ela guardava a calma. Com o tempo não tem mistério, e seria feliz deixar só assim mesmo. Só que não. Porque o silêncio é triste, a cama é fria, os discos são velhos, os remédios acabaram, as contas foram pagas, a comida ta na mesa, o espelho não ajuda, o telefone não toca, não há nada com os amigos, nem com os livros, nem com as flores, nem com a chuva, nem com eles mesmos. Não há nada com eles. Só amor. São as vítimas culpadas por um assassinato mútuo e sem obituário, não vem ninguém ao enterro.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Unhas

Deixou as unhas crescerem para que ele a visse. Semana passada gostava de unhas curtas. Se ele as preferisse melhor, se não, acostumava-se. Lógico que pensava nisso. Todo mundo liga mesmo não querendo ligar. Ou só ela era? Ou a insegurança era dela? Ou era fraca? Ou mentia? Ou tudo?

Tudo com garras cor da pele, sem tempo de botar vermelho ou preto. De repente é só indecisão, mas muito de repente. Exercitava pra ser tão forte quanto podia e menos do que de fato era. Exercitava pra contentar-se, para admitir, objetivar ao invés do contrário.

Ou tinha medo da vida, medo do ânimo, ou só não era diferente e não podia admitir. Porque de vez em quando se trancava e de vez em quando saía. Porque de vez em quando mentia, e de vez em quando falava a verdade. Porque de vez em quando as unhas eram grandes, de vez em quando pequenas. Há falta de perspectiva, mas isso há pra todos. Seria só vaidade, ou o menino do óculos engraçado parou pra olhar também, e se não parou, vai desistir?

Sabe a resposta pra essa pergunta. Porque a parte dura no fim do dedo é feia, mas no fim, todo mundo acha bonito. Todos sabem. Ela tem resposta pra tudo. O que falta, além de tijolo e filme e pista de dança e papel e poeira e choro e tesão e estrada e sol e vermelho ou preto, ou cru é surpresa , sem caixa nem nada, surpresa pura.

terça-feira, 25 de março de 2008

amanhã verde

Ai ela toca a campainha pra avisar que está chegando, mas tem a chave, ele pode continuar no sofá verde. O gato destruiu todo na semana passada, quando a monstruosidade chegou, até que não ficou tão mal. O monstro verde nem era tão confortável, e ele jamais admitiria, mas dependendo do nível de álcool poderia compartilhar o medo com Ernesto, mas suas unhas eram bastante menos afiadas.
Ela entra com o cabelo duro bagunçado.
-You’ve got crazy eyes.
“Não estou pra brincadeira” rebate ela, sentando ao seu lado no verde.
Daí deita a cabeça na perna dele, e chora até conseguir falar que esta apaixonada.
“To apaixonada”
Levanta o rosto. A cena é fácil, mas é complexo descrevê-la; aí vai:
Antes o cabelo black dela esta do meio das pernas dele e a bochecha direita deitada em cima destas, portanto ela pode ver o Ernesto em cima da tevê e não a barriga dele. Depois, levantar o rosto no caso seria deixar de ver o Ernesto e ver o queixo dele com sua barba bem feita, mas também vê pouco porque ele logo olha pra baixo e a visão seria perfeita, mas era sol de Janeiro.
- Quem é? – ele pergunta
- Você não conhece, não é amigo.
Os olhos enchem d’água, ele resolver ver o Ernesto, que mostra compaixão pelo dono, olha para ele, olha, olha, até não o ver, pois a compaixão irracional se esgota e a antena da tevê importa mais.
Ele deixa escorrer uma lágrima, que vai penetrando com dificuldade no ninho cheio de idéias.
- Ô meu amigo, chora não, se não eu choro mais ainda.
- Não é isso Nega, é que...
- Que diabos de sofá é esse? – ela interrompe.
- É novo.
- Mas diz aí que que é então.
- Não é nada não, é só isso mesmo.
Ela seca uma fugitiva, escorrega as mãos nos cabelos loiros, depois volta aos olhos que estão fechados e ela brinca com os cílios.“É loiro até no olho”. Ele não ri. Era pra ela continuar, mas não entendeu. Por fim, dá-lhe um beijo estalado na bochecha, levanta e diz:
- Acho que gosto do verdão.
- É monstro.
Chega menos de trinta centímetros pra trás.
- Acho que não, né Ernesto?
O gato não diz nada.
- A gente não gosta Nega.
- É, a gente não gosta. Vou lá.
Ele ta pronto pra desarmar, com medo da suspeita falida, mais um segundo e poderá respirar os quinze minutos comprimidos. Ela passa da porta, que deixa sempre aberta e lá da janela do elevador ouve-se uma sentença, quase um postulado, totalmente “ilógico” e atemporal.
- O bom é se quando sequer doer, tens tu amanhãs.
Ele então respira vendo a cabeça afundar sem saber se é bom ou ruim.
Sabe-se que sorriu.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Quando

Nunca, nunca, nunca.
Até as veias incharem.
Até as veias explodirem.
Até o sorriso cansar.
Até a pele manchar.
Até lavar toda a roupa.
Até o estômago arder.
Até falar sobre tudo.
Até comer sem querer.
Até engolir coisa pouca.
Até precisar do moderno.
Até se julgar necessária.
Até as unhas.
Até o silêncio ventar.
Até se encher de remédio.
Até remediar o impossível.
Até achar mesmo graça.
Até as pernas.
Até o frio quente.
Até a chaleira.
Até os favores.
Até que doa.
Até o tempo.
Até se render.
Até ser rendida.
Até que pare.
Nunca, nunca, nunca
Até.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Àmigo

A protagonista deste filme é atriz coadjuvante de um filme lado B qualquer. Ela tem medo e pouca idade, não que os dois tenham qualquer ligação. A menina cansa os calos adiquiridos ao longo de sua breve e quase bidécada andando, e não caminhando, porque ela não tem necessáriamente pressa mas quer chegar. Então anda cansada por aí procurando algo que desmonte a nostalgia em pequenos flocos de incerteza que a façam correr e não caminhar (leia-se futuro).
Pois bem, dentre andanças que nada possuem de únicas quer de especiais, prendo-me numa que chama a atenção. E que tenho minhas dúvidas se farão o mesmo com o senhores, mesmo achando esse diálogo "artista"-interlocutor um tanto demodê para os dias atuais.
Enfim, eis que um dia a menina pega o metrô e desse nas Sans Penha, tinha alguma familiaridade com o lugar, a razão da qual nos é de total irrelevância. Pronto lá esta ela andando num par de tênis sujos apertados, ainda que fosse bastante asseada. Engasgou cantando uma melodia com voz de soprano rouca, bonitinha até.
Andou muito, parou numa pastelaria e não pediu nem pastel nem caldo de cana, cumprimentou os chinas que trabalhavam, os quais foram familiarmente antipáticos.
Tomou um ônibus contando com todo o sexto sentido históricamente atribuido ao gênero e preparou-se para descer no ponto final. Sendo fiel à trama não mencionarei uma cena sequer durante o trajeto, que a menina só fez dormir, minhas especulações indicam que talvez seja pelo cansaço da insônia, talvez pelo ventinho na cara, não sei.
Acordou, pôs-se de pé, amarrou os cadarços e desceu do ônibus. Respirou fundo, numa preparação prévia para a ladeira que teria pela frente, comprovou que o local ali era mais frio do que o normal, nada insuportável, mas sutil, digo comprovou pois a pessoa que esperava encontrar no topo da andança havia dito isso algumas vezes à ela.
Como isso a cansava, ela suava, não pelo trajeto íngrime, mas por so mesma. Pelos erros e acertos com as pessoas. Pois a menina adorava analisar as relações entre as pessoas. O assunto era pauta plena na cabeça descoupada (não por idéias). A casa passo ela percebia a afinidade, a não-cerimônia e a linha larga e fraca que a ligava àlguem. Cada passo nostálgico a lembrava de um tempo no qual essa linha era indestrutível, tempo camuflado pela ausência total, mas não a parcial, essa sim agravante.
Os calos ajudavam o medo e a menina andava depressa pra chegar a casa do amigo, que nunca frequentara e não fazia diferença, estava ali.
Assim, há duas possíveis versões finais para a história e cabe ao espectador atribuir sua devida expectativa a qualquer uma das duas (e em filme B tudo é possível).
Primeira chave de ouro: A menina para, descansa na calçada, em frente a janela da sala do amigo, que surpreendentemente encontra-se naquele cômodo, ela mesmo de costas grita o nome dele, que a convida para entrar e trançar os pequenos fios da corda que incertezamente(palavra que me permito criar) tinham se rompido, e tomam café da manhã falando amenidades.
Segunda chabe de ouro: A menina para em frente a casa outrora convidativa e tem medo de tocar a campainha, de não ter gente em casa, de ter gente em casa, medo do que ele vai dizer quando a vir ali, medo do julgamento inconveniente que fará dela, sendo esse um medo totalmente novo, medo largo e fraco. Caminha então, lentamente, ao ponto final (do ônibus).